Na semana passada, tive duas conversas parecidas. Uma com uma médica. Outra com uma amiga preocupada com colegas mais jovens. O assunto era o mesmo: como emagrecer continua sendo uma das poucas coisas que a sociedade aplaude sem pedir contexto.
Você perde cinco quilos e ganha parabéns.
Ninguém pergunta por quê.
Talvez tenha sido porque você começou a caminhar no parque e a comer melhor. Talvez tenha sido porque está apaixonado. Talvez porque está ansioso. Talvez porque está deprimido. Talvez porque esteja doente. Talvez porque passe fome emocionalmente. Talvez porque tenha desenvolvido um transtorno alimentar.
Mas os aplausos vêm antes das perguntas.
Dias atrás, li uma frase do Guilherme Artioli que não me saiu da cabeça: “o culto ao corpo promete saúde, mas entrega doença”.
É uma frase precisa porque a magreza é visível. A saúde, não.
A magreza cabe numa foto. A saúde não.
A saúde mora em lugares menos fotogênicos: numa boa noite de sono, numa relação tranquila com a comida, na capacidade de ir a uma festa sem medo do cardápio, no prazer de comer uma fatia de bolo sem precisar compensá-la depois.
Tenho acompanhado adolescentes que desenvolveram comportamentos alimentares transtornados depois de perder alguns quilos e receber uma enxurrada de elogios. Colegas, familiares, conhecidos. Todo mundo reforçando o resultado sem enxergar o processo.
É compreensível. Fomos treinados para acreditar que perda de peso e melhora da saúde são sinônimos.
Não são.
Às vezes caminham juntas. Muitas vezes não.
Se para manter um corpo magro alguém precisa fazer exercícios extenuantes, checar o próprio corpo dez vezes por dia, viver contando calorias ou sentir medo de um aniversário, talvez o problema não esteja no corpo que essa pessoa tem. Talvez esteja no preço que ela está pagando para mantê-lo.
A magreza faz barulho.
A saúde costuma ser silenciosa.
E talvez esteja na hora de aprendermos a escutar melhor o silêncio.
