Quando eu quero, eu consigo”: será que o problema é mesmo disciplina?

Talvez o seu problema não seja falta de força de vontade

“Eu não tenho problema com comida. Só preciso ter mais força de vontade.”

Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório. Muitas pessoas chegam acreditando que o problema está na falta de disciplina. Afinal, elas já conseguiram seguir uma dieta rigorosa por semanas ou até meses. Perderam peso, dormiram melhor, sentiram menos inchaço, menos dores e, em alguns casos, perceberam melhora em sintomas relacionados a condições inflamatórias, como a endometriose.

Mas então algo acontece. Uma viagem, uma comemoração, uma fase mais estressante no trabalho, um período de maior cansaço ou simplesmente um almoço de domingo com a família. Aos poucos, a dieta deixa de ser seguida à risca. Surgem os deslizes, a culpa e a sensação de fracasso.

A conclusão parece óbvia: “Eu não consegui porque me faltou força de vontade.”

O problema é mesmo falta de disciplina?

É comum que essas pessoas leiam sobre nutrição comportamental ou sobre abordagens que não se baseiam em dietas rígidas e pensem: “Isso é para quem tem problemas com comida. Eu não tenho problema nenhum. Quando quero, eu consigo. Só preciso me esforçar mais.”

Mas será mesmo?

Se alguém consegue seguir uma dieta extremamente restritiva por dois meses, mas não consegue sustentá-la por seis meses, um ano ou pela vida toda, talvez a questão não seja falta de disciplina. Talvez exista um conflito entre as exigências da dieta e as necessidades humanas mais básicas.

O que a restrição faz com a nossa relação com a comida?

A restrição alimentar não produz apenas uma redução na ingestão de calorias. Ela também produz privação. E a privação não é apenas física; ela é emocional.

Quando determinados alimentos passam a ser vistos como proibidos, perigosos ou inadequados, a relação com a comida muda. Comer deixa de ser uma experiência natural para se tornar uma atividade monitorada, calculada e, muitas vezes, carregada de ansiedade.

Muitas pessoas passam a desconfiar da própria fome. Aprendem a ignorar sinais do corpo porque o plano alimentar diz que ainda não é hora de comer. Sentem culpa quando comem algo fora do planejado. Evitam situações sociais porque não sabem se haverá algo que “podem comer”.

Nesse contexto, um almoço de família, uma festa de aniversário ou uma viagem deixam de ser momentos de prazer para se tornarem fontes de estresse.

E quando existe uma condição inflamatória?

Para quem convive com endometriose, síndrome do intestino irritável ou outras condições associadas à inflamação, esse cenário pode ficar ainda mais complexo.

Muitas mulheres passam a acreditar que qualquer desvio da alimentação considerada ideal terá consequências graves. Surge o medo de um pedaço de bolo, de uma sobremesa ou de um jantar especial. Afinal, “e se isso aumentar minha inflamação?”

Essa preocupação é compreensível. A alimentação realmente tem um papel importante na saúde e no manejo de diversas condições clínicas. No entanto, existe uma diferença entre cuidar da alimentação e viver com medo dela.

Um docinho tem todo esse poder?

Inflamação não é resultado de um único alimento consumido em um único momento. O estado inflamatório do organismo é influenciado por um conjunto de fatores, incluindo qualidade do sono, níveis de estresse, prática de atividade física, saúde mental e o padrão alimentar como um todo.

Ao ampliar o olhar para além de um único alimento, percebemos que um doce ocasional tem muito menos poder do que costumamos imaginar. O que realmente importa é o contexto.

Como você se alimenta na maior parte do tempo? Como está sua rotina de sono? Como você lida com o estresse? Sua alimentação é variada? Você consegue atender às necessidades do seu corpo sem viver em constante sensação de restrição?

O que propõe a nutrição comportamental?

A nutrição comportamental não propõe abandonar o cuidado com a saúde. Também não ignora objetivos como perda de peso ou melhora de sintomas. O que ela propõe é construir esse cuidado de forma sustentável.

Em vez de depender de regras rígidas, essa abordagem ajuda a desenvolver habilidades para reconhecer sinais de fome e saciedade, flexibilizar escolhas alimentares, lidar com emoções sem transformar a comida em inimiga e construir hábitos que possam ser mantidos ao longo do tempo.

Porque saúde não depende de perfeição. Depende de consistência.

E talvez a pergunta mais importante não seja se você pode ou não comer um doce.

Talvez a pergunta seja: qual é o impacto de um doce dentro de uma vida construída sobre hábitos consistentes, autocuidado e uma relação mais tranquila com a comida?

Na maioria das vezes, esse impacto é muito menor do que o medo faz parecer.

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