Ela chegou ao consultório perdida em um labirinto de regras. Cada alimento era um risco, cada refeição, um campo minado. A fome era uma inimiga a ser silenciada, muitas vezes com comida, mas nunca de forma verdadeiramente satisfatória. A jornada de Clarice (nome fictício) foi desde o início, uma busca por sair desse lugar de culpa e encontrar uma trégua consigo mesma.

No começo, a fome emocional era a grande vilã. Um cookie levava a outro, uma tarde de beliscos desembocava em um jantar cheio de exageros. Aos poucos, fomos introduzindo conceitos que soavam quase como heresia para alguém que vinha de uma história de dietas: observar a satisfação do paladar. “O que seria tão bom quanto comer nesse momento?” era uma pergunta que a intrigava. Ela se surpreendeu ao perceber que, prestando atenção, o desejo por um alimento específico passava, e ela conseguia comer menos.
A trajetória foi de altos e baixos, como sempre é. Ela descobriu que o tédio era um gatilho poderoso, que comer em pé dava uma sensação proibida que a atraía. A síndrome do intestino irritável (SII) surgiu como mais uma camada de complexidade, criando um medo de comer e de sentir dor. Mas, peça por peça, fomos construindo uma caixa de ferramentas.
E então, chegamos às duas últimas consultas, onde o trabalho de meses pareceu se consolidar de uma forma surpreendente.
Clarice chegou com uma novidade que, no passado, teria sido motivo de frustração. Ela contou que, em um dia ansioso, desejou comer um cookie. Antes, esse desejo seria um gatilho para uma crise: ou ela comeria três de uma vez, com uma sensação de “já que quebrei a regra, vou até o fim”, ou entraria em um estado de privação angustiante, pensando obsessivamente no alimento.
Mas não foi isso que aconteceu.
Ela contou, com um misto de orgulho e espanto, que não conseguiu comprar apenas um cookie, mas conseguiu espaçar o consumo entre os dois que comprou. Soou simples, mas foi um marco. Um comportamento que antes a levava a um comer automático e culpado agora era gerenciado. O cookie não tinha mais o poder de desencadear uma sequência de comportamentos negativos. Em vez disso, tornou-se uma ferramenta de autorregulação. Ela o usou para acalmar a ansiedade, mas de forma consciente, sem se perder no processo.
Na mesma conversa, surgiu outro insight poderoso. Ela relatou um dia em que, após um almoço e um lanche nutritivos, não estava com fome para jantar. No entanto, uma voz interna insistia: “Você precisa jantar”. A antiga Clarice, escrava das regras externas, teria comido mesmo sem fome, apenas para cumprir um horário. A nova Clarice ousou não jantar. Comeu apenas uma salada com ovo porque queria algo leve, mas já conseguia diferenciar isso de uma obrigação. Estávamos discutindo o “comer normal” – aquele que escuta o corpo, e não o relógio ou um livro de regras.
Num domingo, ela comeu um donut e dois cookies. A Clarice do passado teria se afogado em culpa. Desta vez, o pensamento foi diferente: “Tudo bem. Estou sem fome para almoçar, posso dividir meu almoço em dois horários”. Ela não se puniu. Ela se adaptou.
O grande triunfo dessas últimas sessões não foi a perda de peso (que aconteceu como consequência), mas a transformação da relação dela com a comida e consigo mesma. A rigidez que gerava frustração e culpa estava sendo substituída por uma curiosidade gentil. Comportamentos que antes eram gatilhos incontroláveis – como desejar um cookie – agora eram observados, compreendidos e, quando escolhidos, vividos com presença.
Ao final da última consulta, olhei para a trajetória dela e perguntei, retoricamente: “E quando você tem comportamentos que antes te geravam gatilhos e agora te auxiliam?”. Clarice está vivendo a resposta. É quando você percebe que a cura não está no controle rígido, mas na liberdade responsável de se escutar. E, às vezes, essa liberdade tem o sabor doce e reconfortante de um cookie, saboreado sem pressa e sem culpa, como parte da vida, e não como um desvio dela
